O mito do amor romântico

 (Por Eraldo Galindo, professor e escritor)

Pessoas costumam criar narrativas idealizantes sobre si mesmas, talvez no intuito de contornar os fatos brutos da vida e conferir um colorido especial às coisas. Isso traduz a eterna luta humana contra a aspereza do real. O espírito quer luz em meio às sombras do existir.

Acontece que a vida prática que vivemos se dá, em geral, dentro de rotinas repetitivas, sem qualquer brilho especial, causando enfados. Queríamos que tudo que nos ocorre provocasse entusiasmos, emoções coloridas, palpitações no peito. No entanto, a vida se mostra comumente acanhada, enfadonha, até mesmo triste.

Pouca coisa na vida diária pode ser comandada ao nosso bel-prazer. Obedecemos a horários, compromissos, obrigações profissionais, escolares, legais, tributárias. Nos enredamos em mil tarefas que nos consomem as energias. Nos estressamos com situações incômodas que nos fazem perder o equilíbrio psicológico. Respondemos a uma série de expectativas dos outros, coisas que sequer escolhemos, mas que a vida social nos cobra.

Para nos erguermos acima da vida simplória e acanhada que temos, ouvimos música, dançamos, damos festas, bebemos, escrevemos livros, fazemos poesia, viajamos, vemos filmes, sonhamos de olhos abertos, inventamos mundos míticos. Como dizia o poeta Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”.

Os poetas costumam ser exemplares de pessoas que criam uma hiper-realidade. Seu olhar transcende o real, inventa mundos imaginários, se agarra a nuvens de ilusões. A poesia se nutre de quimeras, torna o ácido em doce, o frio em quente, a escuridão em claridade, lapida a pedra bruta da vida.

Assim ocorre também no campo vasto e complexo das relações afetivas. O amor ideal é invenção dos humanos, na tentativa (vã) de resolver a dúvida básica sobre o sentido da existência. Na consciência da finitude da vida, se ergue a ideia de completude: o outro pode preencher o vazio e ser a metade que falta. O amor se reveste da sensação de coisa mágica, inefável, uma predestinação de duas pessoas que se encontram por algum tipo de conspiração cósmica.

A ideia da paixão avassaladora por um outro que vai suprir todas as necessidades emocionais é intensamente cultivada, particularmente na cultura ocidental influenciada pela literatura romântica da era moderna. Se quer que o outro, objeto da paixão, também se apaixone em igual medida e compartilhe negócios, patrimônio, amigos e aspirações, além de proporcionar plena satisfação sexual, ter filhos e garantir felicidade todo o tempo. O amor romântico se revela tirânico, pois joga sobre os ombros do “outro ideal” insuportável responsabilidade. Tal tarefa de uma vida completa seria obra para deuses, não para humanos.

Diante do fracasso pela real impossibilidade de concretização do amor total, sobrevém o sentimento culpa, incompetência e inadequação. Seguem dores psicológicas, frustração, angústia, pavor e outras neuroses típicas. Se pouparia muita dor se humanos entendessem que as relações podem ser prazerosas, criativas e alegres sem estarem escravizadas ao mito do amor romântico.

Costumamos apostar nossas fichas em pessoas, como se a felicidade pudesse ser alcançada fora de nós. Nos destituímos do nosso eixo fundamental. A paixão altera de tal forma os sentidos que enxergamos o inexistente, tocamos o inefável, cantamos canções que só existem dentro de nós. Idealizamos o outro, numa pintura sem retoques.

O amor é arte que busca a beleza essencial. Todas as virtudes se nos apresentam na figura querida. Quando as imperfeições do outro se revelam e destroem as fantasias, nos decepcionamos. À frustração segue a raiva, a sensação de termos sido enganados. Na verdade, nos iludimos, querendo produzir sentidos superiores para a vida.

Queremos arte que nos eleve acima da trivialidade da existência. De certa forma, nós somos nossas próprias ilusões. O espinho que nos fere saiu de nossas mãos. O outro é apenas um exemplar da humanidade imperfeita de que somos parte. O romantismo cria ficções onde existe tão-somente o real incompleto e efêmero.

Lidamos mal com perdas, pois queríamos a permanência das coisas, a durabilidade indefinida das relações afetivas. Rupturas amorosas equivalem a experiências de “pequenas mortes”. A abertura de um novo ciclo depende da higienização da mente para se livrar das amarras afetivas do passado.

Nos cortamos nos cacos de vidro das próprias ilusões que fabricamos para enfeitar a vida. O que frustra não é o amor desfeito, é a descoberta da impossibilidade do amor como o idealizamos. Somos vítimas de nossas alucinações românticas.

“O amor verdadeiro nunca morre; se morrer, não era amor.” Essa falácia é antiga, atravessa toda a história dos afetos no mundo ocidental. O amor é um fenômeno tipicamente humano, que dá um sentido transcendente à vida finita. Como construção humana, também ele está submetido ao eterno ciclo das coisas que nascem, crescem, envelhecem, definham e morrem. A fase primeira do amor, a paixão como estado alterado dos sentidos, se esvai com certa rapidez. A potência da libido, expressão apaixonada do corpo, também diminui com o tempo, até extinguir-se. Os desejos carregados de volúpia se esgarçam, até se transformarem em suaves afetos. O amor, máximo afeto do coração, precisa se alimentar de motivos que o façam vicejar, sob pena de diminuir progressivamente, até o ponto zero de diluição. Amores morrem, como um dia morrem todos os organismos vivos. O amor sobrevive ao furor do tempo somente nos discursos poéticos e na imaginação romântica que se alimenta de quimeras.

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça um comentário!
Coloque seu nome aqui