Eraldo Galindo

Templos do consumo na sociedade pós-moderna, shoppings centers são reverenciados por seus frequentadores, pessoas que se assemelham a religiosos prostrados em seus templos de pedra e cal.  Em bancos, os investidores de pequeno, médio e grande porte conferem os saldos de suas contas com uma atitude psicológica de quem é possuidor (e refém) de relíquias sagradas. Cabe a indagação (sempre recorrente): Por quê meros objetos exercem tamanho fascínio sobre pessoas – um fascínio que, diga-se, tem algo de universal, atingindo pobres, médios e ricos, negros, brancos e amarelos, religiosos e ateus, homens e mulheres, ou seja, todos os tipos da imensa fauna humana?

Os deuses modernos se revestem de uma forma física sedutora: são produtos revestidos de bonitas embalagens adquiridas e adquiridos em “suaves” prestações no crediário das lojas; atendem aos desejos de posse mais espúrios; trazem uma sensação de segurança e conforto emocional para os seus usuários. De fato, o culto ao consumo está disseminado no corpo da sociedade em que (sobre)vivemos. Obedece a um círculo vicioso: quanto mais se consome, mais se deseja consumir; quanto mais se tem, mais se sente compulsão para comprar.

Em que reside tal compulsão de compra e tais desejos de posse de objetos? Sem querer utilizar conceitos de uma psicologia de almanaque, não resistimos a uma resposta óbvia (às vezes o que é obvio é também o não percebido pela maioria): há um vazio existencial a ser preenchido. O consumo desenfreado alimenta a ilusão de preenchimento desse vazio da alma humana pela posse de objetos sedutores. TER é algo que funciona como segurança emocional do SER. Ora, ter é, também, eventualmente, perder; qualidade variável e momentânea, portanto. O SER não se perde, pois não se anula o que é substância. Substantivos são perenes; adjetivos são contingenciais.

Lacunas, dores, saudades, perdas, desilusões não podem ser regeneradas pelos objetos das prateleiras das lojas. Os eventos da vida humana se reportam a experiências e significados que transcendem os objetos. Requerem algo que é diferencial no ser humano: sensibilidade, reflexão, vivências e práticas.

Quem consome desesperadamente, na vã tentativa de escapar dos medos cotidianos e da solidão, na verdade se consome – no sentido negativo de quem se perde de si mesmo, destitui-se da personalidade individual, se deixa dominar pelas coisas, se “coisifica”, conforme expressão cunhada por Karl Marx. entidade pelo consumismo doentio no poema “Eu, etiqueta”.

É impossível que alguém encontre sua verdade pessoal e profundamente humana fora de si. Não somos coisas, pessoas é o que somos. Objetos são úteis à medida que os utilizamos para a nossa sobrevivência física e para alcançarmos um nível de conforto razoável. Se os objetos nos dominam, escravos nos tornamos; embotamos nosso espírito, reduzimos nossa inteligência, negamos nossa individualidade, empobrecemos drasticamente nossa percepção da vida. Renunciamos a nós mesmos enquanto humanos: seres de razão e afeto.

No mundo pós-moderno, de múltiplas sensações, imagens avassaladoras, ruídos estrambóticos e hipervelocidade, nos ocupamos com milhares de coisas e eventos, sobretudo compras (na regra do ter e ter e ter e ter ad nauseam) e inúmeros rituais sociais (em geral formais e que primam pela manutenção de aparências e a estimulação de vaidades individuais e grupais). Porém, em geral, algo fica relegado a segundo plano ou reprimido: o encontro essencial conosco na nudez e verdade do nosso ser. Como disse Karl Rahner, teólogo e filósofo alemão, “o homem contemporâneo se ocupa de milhares de coisas no seu dia-a-dia, mas esquece do essencial: seu coração”.

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Esequias Cardoso
Esequias Cardoso é professor concursado da rede oficial de ensino do Estado de Pernambuco, graduado e pós graduado em História, pela Autarquia de Ensino Superior de Arcoverde - AESA e Universidade de Pernambuco - UPE respectivamente. Professor do Programa de escola Integral , atuando na Escola de Referência em Ensino Médio Olavo Bilac - Sertânia. Atualmente está fazendo especialização em gestão e coordenação em educação (pós graduação).

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