Por Josessandro Andrade*
“Meu São João! Meu São João! Ai que saudade das morenas do Sertão/ o milho assado, a pamonha e a canjica/ a sanfona na quadrilha / prá manter a tradição / quero beber e dançar a noite inteira/ com a morena forrozeira / perfumando esse salão.“

Este arrastapé de autoria do saudoso Mestre Luiz Pintô, gravado pelos seus filhos da Banda Moxotó, que fazem carreira em São Paulo-SP  serve-nos como trilha sonora ideal para
relembrar os bons tempos das nossas festas juninas, organizadas pelo próprio povo, onde não faltava criatividade e originalidade.

Não faz muito tempo, (até porque eu sou novo…)a Noite de São João em Sertânia era marcada pelas fogueiras crepitando na beira das calçadas, as ruas todas enfeitadas de bandeirinhas e balões, o comércio dos fogos de artifício fervilhando, o céu estrelando girândolas e vulcões, as quadrilhas nos Arraiais dos bairros e aqui acolá um casamento matuto
Desfilando. A Banda de pífanos de Zuza Galdino fazendo deleites para nossos ouvidos. Palhoças de folhas de coqueiros, um disco de Luiz Gonzaga ou de Trio Nordestino tocando em toda altura.  Um grupo de bacamarteiros de Zé do Museu, ou de Zé de Rita dando pipôcos que dava prá se ouvir em Pernambuquinho.  O São João, com o tempo vem sendo modificado desde que as prefeituras tomaram conta da festa que era do povo. Ao invés dos palhações de coqueiros agora as tendas de lona tomaram o lugar. As músicas de breganejo assumiram o lugar do forró pé de serra, as fogueiras são cada vez mais raras. Ao invés da canjica, da pamonha , do milho assado, do xerem com galinha, do bode com cuscuz, deu-se lugar aos cosméticos churrascos de linguiças e carnes argentinas. Quer avacalhar uma coisa de cultura? Bote uma prefeitura prá tomar , com raríssimas exceções.

Escrevo hoje, 24 de junho de 2018, as 6 e meia da noite.  A cidade deserta parece que Lampião passou aqui. Nem o Bacamarte de Cidrack se ouve.  Não se vê no centro da cidade nenhum traço de que se é são João em Sertânia , uma cidade do  interior do Nordeste, em pleno Sertão Pernambucano. Nenhuma bandeirinha nem ornamentação nas ruas.  Nenhum sanfoneiro ou som mecânico tocando.  Muito menos um pífano, uma zabumba, e os fogos de artifício quase silenciam. As Fogueiras apagadas.  Cadê Meu São João ?  quem roubou meu São João ? foi a modernidade? Ou os homens sem sensibilidade? Pergunto isto porque cidades vizinhas como Arcoverde, Monteiro, Sumé , Pesqueira, Iguaracy, conseguem fazer grandes festas juninas e Nós ficamos quase sempre somente na vontade.  Por que será? Ouvi pelos mais velhos falar que nos tempos do prefeito Guido Chaves o saudoso Marcos Freitas fizera um das mais belas ornamentações juninas que já se viu na região. Marcelo Lafayete, que este ano completa trinta anos que fora eleito prefeito de nossa terra, foi um gestor que deu importância e visibilidade ao São João em Nossa terra, numa época que não se tem apoios e recursos de hoje. Por que Será que todos estes conseguiram, mas agora não temos mais nada?

A resposta está dentro do próprio município de Sertânia, vão lá no Distrito de Henrique Dias aprender como o povo de lá, como se faz um São João autêntico, com forró-pé-de-serra, Corrida de jumentos, procissão do padroeiro são João, Banda de pífanos, quadrilhas Cabras de Lampião e Boneca de pano (Albuquerque-Né), Arrastão –Caminhada do forró, Roda de Poesia, Lançamento do Livro sobre Henrique Dias , Cidrack com seu bacamarte, Cantoria de viola, meninas sanfoneiras, Lula Sanfoneiro e Mensageiros do Forró.  Em cada casa um arraial de família. Um povo animado como nunca se vê.  Vem filhos de Henrique dias e forasteiros de Paulo Afonso-BA, Maceió-AL, Caruaru e Recife-PE, Campina Grande-PB e muitos outros lugares. As Ruas todas ornamentadas, em cada casa tocando Trio nordestino, Flávio José , Alcimar Monteiro, Daniel Medeiros e o Forró da Terra. De Palmo em palmo um fogueira. O São João de Henrique Dias, com seu casario antigo, nos traz muita recordação, como desta composição de minha autoria e Duval Brito, um arrastapé gravado pelo cantor Luiz Wilson, no  CD “Pintando o sete”, em 2003:
“Um bacamarte atira na noite de São João,/ o forró na madrugada pipoca em foguetão,/ e eu triste e sozinho / no meio da multidão..”
           Parabéns ao Povo de Henrique Dias por preservar estas puras tradições juninas, parabéns Dr. Orestes Neves, exemplo doe Homem apaixonado pela cultura popular e pelas raízes do Moxotó, aos irmãos Gois , a família de Seu ZeZé e a todos os envolvidos.
*Josessandro Andrade é professor da rede estadual de ensino e vencedor do Prêmio Nacional Viva Leitura

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