Na quinta-feira, 14 de junho, dia de sua desincompatibilização da presidência da Central Única dos Trabalhadores de Pernambuco (CUT-PE), Carlos Veras fez um balanço ao Diário de Pernambuco do trabalho realizado à frente da entidade, apresentou os desafios para a classe trabalhadora diante da “atual conjuntura de retrocessos” e defendeu a candidatura de Marília Arraes ao governo de Pernambuco nas eleições de 2018, como estratégia para retomada de um projeto democrático e popular capaz de “inspirar mudanças em todo o país”.

O Tribuna do Moxotó vai reproduzir agora essa entrevista.

DP – Como você avalia os seus dois mandatos como presidente da CUT-PE?

Carlos Veras – É impossível fazer uma avaliação local sem olhar para o cenário nacional e internacional. Basta observar o avanço do fascismo no mundo inteiro. Podemos destacar a vitória do presidente Donald Trump nos Estados Unidos. Símbolo do conservadorismo, foi eleito sob uma plataforma de segregação racial, ataques aos direitos das mulheres, liberação do uso de armas de fogo, entre tantos pontos não menos regressivos. A guerra na Síria é outro triste episódio de como os países ricos tratam as questões humanitárias no mundo, à base de migalhas nos campos de refugiados. No Brasil, não é diferente. Podemos dizer, de forma figurada, que esta gestão da CUT-PE foi vivenciada dentro do “olho do furacão”. Ao longo dessas duas gestões, tivemos e estamos tendo muita maturidade para enfrentar esse processo de avanço do fascismo e desmonte da construção democrática. Nós estancamos a pauta de avanços e de consolidação das conquistas para lutar contra esse retrocesso. Para resumir a avaliação dos meus dois mandatos como presidente da CUT, eu diria: “Luta e resistência.”

.

DP – Você foi o mais jovem e o único trabalhador rural a presidir a CUT-PE. Como essas características influenciaram sua atuação?

Carlos Veras – Organizar a luta das trabalhadoras e dos trabalhadores jovens tem sido um enorme desafio para a CUT em todas as suas instâncias, dependendo a sobrevivência do movimento sindical cutista, dessa compreensão. Assim como em Pernambuco, outros estados também elegeram, para presidir a central, jovens dispostos a contribuir para que o legado da nossa central tenha continuidade, mantendo e fortalecendo a luta de classe. Nós conseguimos consolidar essa renovação, alinhando o desejo de mudança e a garra, naturais da juventude, com companheiras e companheiros, que já possuem uma trajetória no movimento sindical. Quando uma ou um dirigente se propõe a assumir o desafio de atuar em uma central sindical, ela ou ele, por uma questão existencial, começa a se sentir mais pertencente à classe trabalhadora do que a um determinado ramo. Porém, o fato de ser trabalhador rural, setor bastante organizado e integrado às lutas da central, facilitou bastante minha atuação.

DP – Que outros resultados de sua gestão à frente da CUT-PE você destaca?

Carlos Veras  – Não sei se posso denominar como resultado, mas certamente podemos tirar como algo positivo disso tudo que aconteceu e acontece atualmente em nosso país. Este processo deixou muito demarcada a presença de dois projetos bem cristalinos na sociedade. Um que defende, a todo custo, a continuidade da segregação social, e outro que não aceita ser subserviente a esta ordem imperialista e resiste de todas as maneiras para impedir este avanço. É muito resumido, mas só esse trecho já dá um bom debate a respeito. Este momento histórico possibilita o surgimento de uma nova base de resistência, com líderes sociais mais preparados, sem habitar em uma falsa zona de conforto. No acirramento da luta de classe, é que se forjam as verdadeiras e verdadeiros representantes da classe oprimida. Nós, da CUT Pernambuco, estamos atentos para não perdermos este momento, porque entendemos que a luta é árdua e contínua. Por isso, estamos nas bases discutindo e construindo a plataforma da classe trabalhadora. Estamos ajudando a construir a Frente Brasil Popular com a Frente Povo sem Medo, estamos na luta por igualdade de gênero, contra a LGBTfobia, em favor da igualdade racial, na luta pelo respeito aos jovens, entre tantas outras pautas. .

DP – Qual sua análise a respeito da greve dos caminhoneiros, considerando a não organização deles em entidades de classe, a posição de uma parcela em apoio à intervenção militar e a possibilidade de locaute?

Carlos Veras – É necessário ter cuidado com esse tema para não cometermos injustiças com as trabalhadoras e os trabalhadores caminhoneiros. O que estava sendo reivindicado pelos caminhoneiros era a redução do preço do óleo diesel; fim das alíquotas de Programa de Intervenção Social (PIS) e de Contribuição para o Orçamento da Seguridade Social (Cofins), assim como a isenção da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) para transportadores autônomos; redução de pedágio etc., mas o principal item referia-se à redução do diesel. O debate que a sociedade, em sua grande maioria, conseguiu absorver foi com relação à cobrança de impostos, o alto nível da carga tributária do país, debate esse alimentado fortemente pela mídia; mas a questão, em se tratando de arrecadação fiscal no Brasil, é que a única linha de raciocínio que esse governo consegue fazer desenvolver é em relação à isenção e redução de tributos e, ao reduzir a entrada de recursos nos cofres públicos, a compensação sempre é a retirada de investimentos nas áreas sociais, principalmente na saúde, educação e infraestrutura. Quem paga a conta sempre é a sociedade, principalmente os mais pobres. Enquanto isso, o governo gasta metade do que arrecada com pagamento da dívida pública, ou seja, pagamento e amortização de juros para o setor financeiro. É uma total inversão de valores, tira-se de quem não tem para dar àqueles que já têm demais. Para corrigir essa injustiça, é necessário, além de uma reforma tributária que cobrasse a verdadeira fatura dos mais ricos, mudanças em todas as áreas da economia. Certamente, parte desses caminhoneiros foram utilizados como instrumento para outros setores, como os donos das empresas de transporte e parlamentares ligados ao setor. Mas ficou um exemplo para a sociedade. Só com a unidade de todos os setores produtivos, teremos forças para mudar o cenário atual.

DP – Em que medida, você acredita que sua pré-candidatura a deputado federal pode contribuir para qualificar a política no Brasil?

Carlos Veras – Foram aprovadas no Congresso várias leis contra o povo brasileiro, a exemplo da Emenda Constitucional nº 95, que congela investimentos nas áreas sociais por 20 anos; a reforma trabalhista, que rasga a CLT e introduz uma nova correlação de forças entre empregado e patrão, nesse caso dando mais poder de fogo aos patrões, e a reforma do ensino médio sem debate com a sociedade. Muitas outras medidas nefastas estão esperando o fim das eleições para que, dependendo dos resultados das urnas, sejam apresentadas para serem votadas. Nós precisamos mudar a correlação de forças no Congresso. É por isso que a minha provável candidatura é importante.

DP – É pública sua posição em favor da candidatura do PT e o apoio a Marília Arraes, em contraposição a líderes históricos como o senador Humberto Costa. Por que é tão importante a candidatura própria do PT?

Carlos Veras – Nosso apoio à candidatura de Marília Arraes, como candidatura própria do PT, não é um enfrentamento a Humberto Costa. Nós achamos que o melhor caminho é respeitar a democracia interna do PT e a lógica do partido, que é ser um partido de massas, de filiados, e não só de dirigentes e de parlamentares. Os filiados, hoje em Pernambuco, querem uma candidatura própria, querem Marília Arraes governadora. Esse também é o melhor caminho para ampliar nossa bancada de deputados estaduais e federais. O PT tem o compromisso de apresentar uma opção aos pernambucanos para o governo do estado, e Marília Arraes representa esse projeto de avanço.

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça um comentário!
Coloque seu nome aqui